25 Feb 2010

Yarrrr, we're all pirates.

Este é um assunto que me é bastante caro. Hoje apetece-me falar de pirataria musical. Porque afinal de contas, nós somos todos piratas. Até o Tozé Brito é pirata. Yarr.

A pirataria é um tema polémico na (nossa) sociedade. É daquelas hipocrisias lixadas que, juntamente com a falta de conhecimento e a incapacidade de realizar duas sinapses em simultâneo, levam a uma desinformação em massa. Então, com associações como a PassMusica, a MAPINET, a SPA e afins, que fazem uma argumentação que é no mínimo.. peculiar sobre este assunto, não podemos ir longe.

Os acérrimos defensores anti-pirataria baseiam o seu pensamento em três pilares base:

1) A pirataria é má, financeiramente, para os artistas
2) A pirataria é roubo
3) A pirataria prejudica a industria musical e, por conseguinte, a música

Bem. Isto não vai ser fácil. Os argumentos são de peso e, à primeira vista, perfeitamente coerentes e cogentes com a verdade. Irei então, só pela diversão do exercício mental, tentar provar o contrário.


1) A pirataria é má, financeiramente, para os artistas


Bem, vamos lá a ver. Este argumento pode desdobrar-se em três pontos: a) Quem pirateia não vai comprar álbuns, b) Quem pirateia não vai a concertos e c) Os artistas perdem dinheiro por cada álbum pirateado.

A primeira alínea é, a meu ver, errada. Podia dar o exemplo da minha pessoa - que é sempre um óptimo exemplo de rectidão -, de vários amigos meus, de pessoas que conheço, de pessoas que sei que não o fazem assim. Até diria mais: todos os álbuns que possuo (à excepção de um) foram comprados após ter conhecimento da banda por pirataria. Portanto, em última análise, os artistas a quem eu comprei os álbuns após a pirataria lucraram com a pirataria, pois, de outro modo, era muito mais difícil eu tomar conhecimento da sua música e adquirir os álbuns.

A segunda alínea é ainda mais errada. Se a alínea anterior for dúbia, esta é óbvia. Parece que as major (e principalmente as minor) labels ainda não perceberam que a pirataria é o maior meio de divulgação de um artista. Mais que rádios, mais que singles, mais que ofertas. A Internet fornece, graças a serviços como a Last.FM [1], Pandora [2], etc, meios muito eficazes de descoberta de novos artistas. E, após a experimentação de um álbum convenientemente descarregado da Internet num bitrate decente, uma divulgação que seria impossível de atingir por outros meios. Essa divulgação permite que as pessoas possam entrar em contacto com novas bandas e, obviamente, predisporem-se mais facilmente a assistir a um concerto perto de si - até diria, por um preço mais alto do que seria de esperar.
O maior problema aqui parece-me ser óbvio: as labels recebem bastante menos dinheiro com as tours do que com a venda de álbuns.

A terceira alínea é mais chata, porque até é de certo modo verdadeira (mas com limites). Se tivermos em atenção que, antes da era da Internet, as pessoas compravam álbuns por recomendação ou por curiosidade, sem saber se iriam gostar ou não do álbum, é uma conclusão lógica que o facto de as pessoas puderem experimentar o álbum de graça antes de o comprar leva a uma diminuição das vendas. No entanto, podemos perguntar onde está a ética de vender um produto sobre o qual o consumidor pouco ou nada sabe - sim, porque nunca era dada a oportunidade de ouvir um álbum antes de o comprar, salvo um ou outro single que passasse na rádio. E este ponto parece-me fulcral: se, com praticamente todos os outros produtos, termos uma noção mais ou menos exacta do funcionamento, das características e afins dele, o mesmo não se passa com o caso da Música. No entanto, este argumento, per se, não deixa de ser verdadeiro.

No entanto, vejamos uma coisa. Os artistas lucram bastante mais em concertos e tours do que com cada álbum vendido. Por exemplo, numa label mainstream, o revendedor do CD ganha mais por CD vendido do que o artista. [3]. Enquanto que na tour o cachet reverte normalmente para o artista, os ganhos por CD andarão entre os 3% e os 25% por CD vendido [4]. Portanto, é lógico perguntar se os artistas não lucrarão mais, hipoteticamente, com a pirataria. Certamente que as labels não lucram tanto - ou nada - com este tipo de modelo. Mas os artistas, quem faz a música, é provável que lucrem mais.


2) A pirataria é roubo


Esta é o argumento mais forte. Primeiro que tudo, pode-se definir roubo como a transferência de propriedade de uma pessoa/instituição para outra pessoa/instituição sem o consentimento do dono original. Poder-se-á argumentar facilmente que os artistas não consentem que a sua música seja distribuída de forma livre na Internet. Parece-me uma posição legitima, e estaria a trair-me se dissesse o contrario.

No entanto, é fácil perceber que os artistas terão, em casos normais, vantagens para que essa transição seja facilitada. Portanto, a pirataria é roubo, certo. Mas os artistas estarão a perder possibilidades de negócio. Atenção que eu não defendo que os artistas devam abdicar de todo e qualquer direito sobre a música. Há licenças que permitem que os artistas distribuam a sua obra sem abdicar de direitos sobre ela [5]. O problema é que isto volta a não ser conveniente para as editoras - significa que estão a perder negócio, e do grande. Parece-me legitimo que façam pressão para que isto não aconteça, já que está em causa o seu trabalho. No entanto, a luta é fútil - na minha opinião, é óbvio que a luta está perdida, e só com o fim da Internet como a conhecemos hoje em dia (neutra, relativamente anónima, sem censura governamental, etc) é que poderia haver uma inversão.

As editoras podiam já ter percebido isto e mudado o modelo de negócio, adaptando aos novos tempos. Algumas já o fizeram, com especial destaque para a The Null Corporation [6] do Trent Reznor. E funcionou. As vendas do The Slip e do Ghosts I-IV superaram as expectativas, mesmo estando disponível o download legal de todas as músicas de ambos os álbuns em vários formatos (chegando ao extremo de disponibilizar FLACs de 24/96kHz). E mesmo assim, lucraram imenso - as vendas do Ghosts I-IV chegaram aos 1.6 milhões de US$ [7].

Em suma, a pirataria pode ser considerada roubo, mas essa atitude não é proveitosa para os artistas - precisamente quem as editoras e associações derivadas querem """"proteger"""".


3) A pirataria prejudica a industria musical e, por conseguinte, a música


Este parece-me o ponto fulcral desta discussão. Na verdade, todas as associações e afins que foram referidas no início do post não estão muito interessadas em proteger os artistas; estão muito mais interessadas em proteger-se a si mesmas. Apesar de não ver nada de mal neste tipo de (re)acção, há que considerar que as coisas chegaram a um extremo (hint, hint: fazer downloads de música leva a uma compensação mais elevada do que morrer num acidente de avião [8].

Vamos então por o argumento mais claro:
  • A indústria musical é prejudicada pela pirataria
  • A música não pode sobreviver sem a indústria musical
  • Logo, piratear prejudica a música
Parece-me que o problema é claro: enquanto que a primeira premissa é verdadeira, a segunda não é, o que leva a que a conclusão não seja verdadeira. E é muito simples perceber isto: é perfeitamente possível encontrar editoras fora do circuito (ditas indie, como por exemplo a Hydra Head do Aaron Turner, vocalista dos ISIS [9]) que funcionam bem sem estarem dentro da industria discográfica (tempo para esclarecimento: quando falo em industria discográfica, estou a referir-me a todas as grandes editoras e todo o aparato e aparelhagem que as rodeia).

A pirataria não prejudica a música. Foi graças à partilha de ficheiros que bandas como os Arctic Monkeys atingiram o grande público [10]. Foi graças à partilha de ficheiros que eu conheci bandas como Cloudkicker (que disponibiliza os seus discos de forma gratuita no seu site [11]), CO.IN [12] e afins. A partilha de ficheiros, a pirataria, é um incentivo para se fazer mais música e melhor música. O público potencial de determinada banda aumentou com a Internet. A música só tem a ganhar com isto.

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Findo isto, gostaria de dizer que sou obviamente pró-partilha de ficheiros. Digo, sem assombro, que partilho a música que tenho com amigos, colegas e pessoas que não conheço de parte nenhuma. Não acho que seja um direito adquirido ter música à borla, mas acho que pelo menos duas das partes envolvidas (músico e ouvinte) só têm a ganhar com ela. A industria discográfica iria perder, certamente, mas apenas se manter o seu modelo de negócio obsoleto. Havendo uma reviravolta nos planos deles, poderiam perfeitamente ganhar.

5 comentários:

triton said...

Bom artigo.

Tive conhecimentento de praticamente todas as bandas que ouço actualmente graças à internet (e algumas ao esquiso... :/).

E muitas já levaram com bom dinheiro meu graças a isso, desde CDs, concertos, e merchandising.

Anonymous said...

Apesar de não concordar inteiramente com tudo o que li neste post, adorei a tua tentativa de esforço mental para argumentar a favor da pirataria.
Tens jeito para isto, rapaz.

Anonymous said...

Do melhor mesmo.

esquiso said...

Mas a tentativa foi bem ou mal sucedida? :)

Anonymous said...

Diga-se que fizeste um excelente trabalho, na minha opiniao.