Durante algum tempo pensei se era possível haver em Portugal um movimento de alguma espécie (seja partidário ou não) com uma forte componente liberal (seja ele social, libertário, clássico, minarquista, etc). Uma agremiação de todos os liberais portugueses que pudesse marcar a diferença na sociedade. Inclusivamente, já passaram pela minha cabeça vários planos mais ou menos elaborados para a existência de uma coisa do género. Mas mais ou menos depressa esbarravam sempre contra um grande problema: a realidade.
Portugal sempre teve "liberais". Tivemos uma revolução "liberal", contra a monarquia absoluta. Tivemos partidos "liberais" . Tivemos alas "liberais" dentro da ditadura. Temos agora uma onda de "liberais" em partidos como o PSD e o CDS. Mas nunca houve um movimento liberal, um partido liberal, uma revolução liberal. Já existiram portugueses liberais, mas nunca conseguiram ter expressividade no nosso país.
Não há possibilidade de criar uma associação política liberal em Portugal. Pelo menos, não num futuro próximo.
A primeira razão para isto acontecer é de ordem religiosa. O liberalismo é uma invenção protestante, e as invenções protestantes não costumam funcionar em países católicos. O liberalismo, como invenção protestante que é, pressupõe que o indivíduo é um ser racional e que tem iniciativa, que analisa as coisas pela sua cabeça e que chega às suas conclusões usando a sua razão e a sua intuição; afinal de contas, é assim que o protestantismo funciona: a Bíblia, e não a Igreja, é quem determina a rectidão da acção, pressupondo pois que o indivíduo leu realmente a Bíblia e reflectiu sobre ela. No Catolicismo, é o padre (a Igreja) que lê a Bíblia pelos fieis e quem lhes diz como é que a Bíblia deve ser interpretada.
A segunda razão é de ordem histórica. O liberalismo pressupõe que o indivíduo é livre, dono e senhor do seu corpo, com um estatuto moral igual a todos os outros indivíduos do mundo. Ora, nos cerca de 900 anos que Portugal leva de história, foram poucos os momentos em que isso aconteceu. E quando aconteceu, correu mal. Não está no sangue português esta característica de haver igualdade de direitos e deveres entre os diferentes membros da sociedade.
A terceira razão é cultural. Nós não sabemos viver sem Estado. Não sabemos assumir a responsabilidade pelos nossos actos. Não sabemos não nos imiscuir na vida do nosso vizinho. Não sabemos não ser independentes, com iniciativa, com capacidade de descobrir uma direcção que melhor couber à nossa situação. Não é assim que somos educados pelos nossos pais, não é assim que nos ensinam na escola.
Em Portugal não é possível fazer um ataque consistente ao Estado, por muito bem fundamentado que ele esteja. Não é possível assumir posições liberais em público. Não é possível ser-se contra os subsídios, não é possível não se ser utilitarista, não é possível querer algo diferente, não cooperativista e cuja ideia tire o Estado da equação.
Caso uma pessoa ouse (e é mesmo uma questão de ousadia) atentar contra o status quo é prontamente e abertamente denegrido de todos os quadrantes. Provavelmente, porque é um pulha que só quer lucro (esse demónio), um porco fascista neoconservador e capitalista (apesar de ser liberal), um qualquer explorador das massas que quer escravizar o povo, mante-lo burro e pouco instruído para poder manter o poder pelo máximo de tempo possível.
Os nossos "liberais" não são liberais porque acreditem na liberdade, na propriedade privada ou nessas coisas secundárias. São utilitaristas, e acreditam que o liberalismo é a melhor maneira de assegurar uma vida condigna à população. Mas se os convencem que estavam errados nesse ponto (sendo ou não verdade), rapidamente mudam de camisola, marimbam-se para as liberdades e rapidamente se decidem a agir contra o que anteriormente defendiam. Não são liberais, são "liberais".
Eu, sinceramente, não vislumbro soluções. Nem no longo-prazo. Era preciso uma revolução tão grande, que seriam necessários vários, vários anos para que as alterações se começassem a notar. Era o trabalho de uma vida, e morrer sem recolher os frutos. É extremamente desmotivador.
Não é possível ensinar o liberalismo na escola. As escolas em Portugal são, quase sem excepção, colectivos socialistas que ensinam os males do mercado e o bem que o Estado faz à economia - quando abordam estes assuntos, claro. Além disso, não se pode ensinar uma pessoa a ser liberal, a conclusão tem que vir de dentro dessa pessoa: é ela que tem que sentir que realmente a liberdade, a vida e a propriedade privada são as coisas pelas quais deve lutar e defender. Não é possível ensinar a população a ser liberal, especialmente quando ela vive com a ilusão que vive bem assim.
Menti quando dizia que não vislumbrava soluções. Vislumbro uma: a realidade. Mas provavelmente vai ser demasiado tarde.
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