Não, não se ponham com ideias. Não existe. No entanto, gostava de desenvolver uma das causas que me parece fundamental para isto não acontecer: o Ensino.
Escrevi aqui há uns tempos a seguinte frase: "Não é possível ensinar o liberalismo na escola. As escolas em Portugal são, quase sem excepção, colectivos socialistas que ensinam os males do mercado e o bem que o Estado faz à economia - quando abordam estes assuntos, claro.". Agora sinto-me tentado a desenvolver este ponto.
Mas primeiro, uma pequena contextualização: sou (era até pouco tempo, vá) aluno do 12º na área de Ciências Sócio-Económicas; tive Economia A no 10º e 11º e agora tenho Economia C (não existe Economia B, tanto quanto sei). O programa de Economia C é orientado para as questões e problemáticas do desenvolvimento no mundo contemporâneo. O livro adoptado pela nossa escola é o "Economia C 12º Ano" da Texto Editores. Na página 236 e 237 podemos encontrar o exemplo acabado daquilo que procuro demonstrar. Passo a citar (os bolds e itálicos não são da minha autoria):
Escrevi aqui há uns tempos a seguinte frase: "Não é possível ensinar o liberalismo na escola. As escolas em Portugal são, quase sem excepção, colectivos socialistas que ensinam os males do mercado e o bem que o Estado faz à economia - quando abordam estes assuntos, claro.". Agora sinto-me tentado a desenvolver este ponto.
Mas primeiro, uma pequena contextualização: sou (era até pouco tempo, vá) aluno do 12º na área de Ciências Sócio-Económicas; tive Economia A no 10º e 11º e agora tenho Economia C (não existe Economia B, tanto quanto sei). O programa de Economia C é orientado para as questões e problemáticas do desenvolvimento no mundo contemporâneo. O livro adoptado pela nossa escola é o "Economia C 12º Ano" da Texto Editores. Na página 236 e 237 podemos encontrar o exemplo acabado daquilo que procuro demonstrar. Passo a citar (os bolds e itálicos não são da minha autoria):
Desde 1960, que as desigualdades sociais no planeta se têm vindo a acentuar. Nos EUA, cerca de 40 milhões de cidadãos encontram-se excluídos dos sistemas sociais e o salário médio real tem vindo a reduzir-se desde 1973; (...) Em Portugal, também têm vindo a aumentar as fracturas sociais e a pobreza. Por sua vez, nos países do Sul, 160 milhões de crianças passam fome e 100 milhões delas vivem nas ruas. Paralelamente, as riquezas produzidas anualmente no mundo aumentaram oito vezes, desde há 40 anos.
Estes exemplos ilustram algumas das consequências da globalização neo-liberal, que acentua o individual relativamente ao social, criando sociedades de fracturas sociais e de grandes desigualdades. O ressurgimento das doutrinas neoliberais, a partir da década de 70 (...) proporcionou um conjunto de reformas que têm vindo a desmantelar a dimensão social do Estado-providência e a fundamentar as desigualdades sociais, a partir de concepções individualistas. Estas culpabilizam o indivíduo, em geral, da situação em que se encontra, pois a noção de responsabilidade individual pretende pôr em causa o projecto mais igualitário que havia prevalecido na década de 1960.
And so forth. Este pequeno excerto é riquíssimo, já que contem dos mais brilhantes lugares-comuns que são ensinados na Escola portuguesa.
Começando pelo princípio, o ad misericordiam presente é brilhante ("Se não concordarem connosco e fizerem o que dissermos, X milhões de pessoas vão morrer à fome e de doenças!"). No entanto, parece-me que os autores se "esquecem" de um pequeno pormenor muito engraçado: nestes tais 30 ou 40 anos em que o "neo-liberalismo" se instalou, se "desmantelou" a dimensão social do Estado e se criaram sociedades de "fracturas sociais e de grandes desigualdades", a grande maioria (para não dizer a totalidade) dos países onde isso aconteceu era (e continua a ser) democrático - ou seja, as decisões políticas que levaram a essas grandes desigualdades e fracturas e tudo mais foram, ao longo dos anos, legitimadas pelo fantástico processo democrático, que foi apregoado durante o livro como a melhor coisa do mundo. Parece que, afinal, não é. Parece que afinal o processo democrático só é fantástico quando nós concordamos com as decisões - não serve para justificar qualquer decisão. Bem-vindos a uma das (grandes) limitações da Democracia, malta! Mas que mais seria de esperar? Avante.
Também acho muito, muito engraçado que se fale de "globalização neo-liberal" que "acentua o individual relativamente ao social" e dar o exemplo de Portugal para o justificar. Sim, Portugal, esse grande exemplo da revolução "neo-liberal" do 25 de Abril, das acções "neo-liberais" do PREC, dos governos "neo-liberais" dos últimos 35 anos, do "neo-liberal" do Sócrates, do Guterres, do Barroso ou do Cavaco. Esta sociedade Portuguesa, onde o "individual" é claramente tido em maior consideração relativamente ao "social". Foi certamente graças ao "neo-liberalismo" que as "têm vindo a aumentar as fracturas sociais e a pobreza" em Portugal. Se calhar, o Guterres, quando meteu na gaveta o socialismo, tirou de lá o "neo-liberalismo". Aposto que foi isso! E ninguém me avisou, bolas.
É igualmente espectacular - mas nada surpreendente - o facto de também usarem os "países do Sul" para mostrarem quão más são estas teorias individualistas. Aposto que foram as teorias individualistas que condenaram à pobreza todos os países em África com revoluções "neo-liberais" que aconteceram, por exemplo, em Moçambique depois da independência. Aposto que a culpa da existência de pobres na América do Sul (em especial em países como a Venezuela e Bolívia) é das teorias individualistas que os seus líderes "neo-liberais" põem em prática.
De ressaltar ainda o facto de as teorias individualistas "culpabilizarem o indivíduo, em geral, da situação em que se encontra". Realmente, não me parece bem. Não me parece nada bem que se estrague o tal "projecto mais igualitário" com essas coisa menores como a "responsabilidade individual". Que teoria tão pouco humana, essa de oferecer ao indivíduo um estatuto moral que o faça ser livre de tomar as suas decisões e de arcar com as consequências (sejam elas positivas ou negativas). Ridículo.
Enfim. Li muita vezes que os políticos que temos são formados nas juventudes partidárias. Sinceramente, eu acho que são formados na escola. É lá que aprendem que não a solução nunca é "menos Estado" - esse é o problema, na realidade.
É por isto que não temos Liberalismo em Portugal. As pessoas são formadas para serem cidadãos e não seres humanos: são ensinadas a decorar e não a pensar. Desde de que se comportem de acordo com o que é ensinado, tudo está bem.
Começando pelo princípio, o ad misericordiam presente é brilhante ("Se não concordarem connosco e fizerem o que dissermos, X milhões de pessoas vão morrer à fome e de doenças!"). No entanto, parece-me que os autores se "esquecem" de um pequeno pormenor muito engraçado: nestes tais 30 ou 40 anos em que o "neo-liberalismo" se instalou, se "desmantelou" a dimensão social do Estado e se criaram sociedades de "fracturas sociais e de grandes desigualdades", a grande maioria (para não dizer a totalidade) dos países onde isso aconteceu era (e continua a ser) democrático - ou seja, as decisões políticas que levaram a essas grandes desigualdades e fracturas e tudo mais foram, ao longo dos anos, legitimadas pelo fantástico processo democrático, que foi apregoado durante o livro como a melhor coisa do mundo. Parece que, afinal, não é. Parece que afinal o processo democrático só é fantástico quando nós concordamos com as decisões - não serve para justificar qualquer decisão. Bem-vindos a uma das (grandes) limitações da Democracia, malta! Mas que mais seria de esperar? Avante.
Também acho muito, muito engraçado que se fale de "globalização neo-liberal" que "acentua o individual relativamente ao social" e dar o exemplo de Portugal para o justificar. Sim, Portugal, esse grande exemplo da revolução "neo-liberal" do 25 de Abril, das acções "neo-liberais" do PREC, dos governos "neo-liberais" dos últimos 35 anos, do "neo-liberal" do Sócrates, do Guterres, do Barroso ou do Cavaco. Esta sociedade Portuguesa, onde o "individual" é claramente tido em maior consideração relativamente ao "social". Foi certamente graças ao "neo-liberalismo" que as "têm vindo a aumentar as fracturas sociais e a pobreza" em Portugal. Se calhar, o Guterres, quando meteu na gaveta o socialismo, tirou de lá o "neo-liberalismo". Aposto que foi isso! E ninguém me avisou, bolas.
É igualmente espectacular - mas nada surpreendente - o facto de também usarem os "países do Sul" para mostrarem quão más são estas teorias individualistas. Aposto que foram as teorias individualistas que condenaram à pobreza todos os países em África com revoluções "neo-liberais" que aconteceram, por exemplo, em Moçambique depois da independência. Aposto que a culpa da existência de pobres na América do Sul (em especial em países como a Venezuela e Bolívia) é das teorias individualistas que os seus líderes "neo-liberais" põem em prática.
De ressaltar ainda o facto de as teorias individualistas "culpabilizarem o indivíduo, em geral, da situação em que se encontra". Realmente, não me parece bem. Não me parece nada bem que se estrague o tal "projecto mais igualitário" com essas coisa menores como a "responsabilidade individual". Que teoria tão pouco humana, essa de oferecer ao indivíduo um estatuto moral que o faça ser livre de tomar as suas decisões e de arcar com as consequências (sejam elas positivas ou negativas). Ridículo.
Enfim. Li muita vezes que os políticos que temos são formados nas juventudes partidárias. Sinceramente, eu acho que são formados na escola. É lá que aprendem que não a solução nunca é "menos Estado" - esse é o problema, na realidade.
É por isto que não temos Liberalismo em Portugal. As pessoas são formadas para serem cidadãos e não seres humanos: são ensinadas a decorar e não a pensar. Desde de que se comportem de acordo com o que é ensinado, tudo está bem.
0 comentários:
Post a Comment