20 Nov 2010

NATO, paz e guerra

Esta barulheira toda sobre a NATO faz-me pensar. Vejo manifestações, protestos, cartazes, panfletos e muita gente a preocupar-se com a NATO. "Paz sim, NATO não" parece ser a palavra de ordem. Tudo muito bonito. Mas há coisas que me fazem alguma confusão no meio disto tudo.

Todos estes protestos são indissociáveis de toda uma classe que orbita em torno (se é que não vive mesmo dentro) do PCP e do BE. Para isso contribui o destaque que ambos os partidos têm dado a este protesto e a óbvia/estranha concordância/coincidência de valores entre ambas as plataformas: a campanha "Paz sim, NATO não" não se limita apenas a ser uma plataforma anti-belicista/pacifista/etc, mas também se opõe "ao golpe brutal contra as condições de vida dos trabalhadores e da população mais pobre" e inclusivamente "saúda a jornada de luta convocada pela CGTP-IN contra o desemprego e as injustiças – pelo emprego com direitos, por salários justos e dignos e por serviços públicos universais e de qualidade". Não deixa de ser estranho que uma plataforma que procura "expressar a oposição da população portuguesa à realização da cimeira da NATO e aos seus objectivos belicistas" assuma posições relativamente a assuntos fora do seu "core" e que expressam a posição de cerca de 1/5 dos portugueses (usando os resultados das últimas legislativas). Mas enfim, já percebemos: estas plataformas são apenas fachadas daqueles dois partidos para defender determinada causa e, aproveitando, promover uma agenda. Tudo pelos trabalhadores, claro.

E isto, para além de me causar confusão, chateia-me. Se isto fosse uma campanha contra a NATO, mas que se ficasse por aí, teriam o meu apoio: toda aquela corja mete-me nojo, assim como todas as organizações com objectivos semelhantes - afinal de contas, toda a iniciação de força física é moralmente injustificável. Mas também me mete nojo estes duplos standards.

Não consigo deixar de ter a sensação de que se houvesse uma organização qualquer que, sendo organicamente igual à NATO, que defendesse sensivelmente as mesmas coisas, mas que acrescentasse que é solidária com a "luta dos trabalhadores", a defesa do "progresso", a "melhoria de vida do proletariado", pelo "socialismo", etc, ela era aplaudida, endossada, apoiada e elogiada exactamente por estas mesmas pessoas que agora se dizem contra a NATO. Aliás, pergunto-me a mim se estas pessoas que se manifestam contra a NATO seriam ou não a favor do Tratado de Varsóvia.


Tudo isto me faz chegar a um conclusão: isto não é uma questão de guerra, paz, agressão ou não. Ninguém quer saber dessas merdas. A guerra é perfeitamente normal, boa, aceitável e fixe desde que eu concorde com ela/as razões dela existir. Uma guerra é moral desde que defenda o mesmo que eu. E são estas coisas que me deixam lixado. Por isso é que não saímos do sítio.

0 comentários: