.. me deparo com isto. Um post sobre drogas. Eu gosto muito de posts sobre drogas. Revelam muito sobre as pessoas e a sua posição sobre as liberdades individuais. E este post é muito revelador. Como são duas da manhã, queria só deixar aqui notas muito rápidas:
- "O argumento recorrente, pró-legalização é o já conhecido paralelismo com o álcool e tabaco. (...) Two wrongs don’t make a right."
Caríssimo. O problema não é o álcool ou o tabaco (ou até mesmo o café) serem legais. Isso é a parte que *está bem*. A parte que está mal é mesmo as restantes drogas (ditas ilegais) serem ilegais. Até porque a maior parte delas (LSD, Cannabis, Ecstasy) representam um menor risco de adição e, simultaneamente, um menor risco para a saúde.
- "Não se pode é esquecer que existe uma questão cultural associada aos hábitos de consumo de determinados produtos. Se o álcool e o tabaco têm uma determinada percepção pela sociedade ocidental, a droga tem outra totalmente diferente."
Muito sinceramente, bullshit. Até a década de 1950, a heroína era legal em Inglaterra. O ópio era legal, consumido e apreciado até inícios do séc XX em praticamente todo o mundo. A cocaína só passou a ser "ilegalizada" (leia-se, tinha impostos elevadissimos) nos EUA depois do Harrisson Act (1914). O mesmo aconteceu com a Cannabis, mas só em 1937 (Marijuana Tax Act). A proibição de determinadas drogas nada teve a ver com "percepção pela sociedade ocidental" mas sim com a intromissão dos Estados.
Ainda há aqui outra pergunta a levantar. Se "determinada percepção pela sociedade" ditasse que a escravidão era fixe, isso tornaria a escravidão legítima? Ou, mais subtil, se ditasse que "o islamismo é uma religião assassina e por isso deve ser banida", isso tornaria a proibição do islamismo legítima?
Há ainda outro ponto que é fabuloso, mas recorrente, ao longo do texto. A separação entre "o álcool e o tabaco" e "a droga". Adoro estes jogos de palavras. Como a "droga" é má, tem uma conotação negativa, convém separar "o álcool e o tabaco" d'"a droga", senão o nosso ponto vai ao ar.
- "As Leis são coercivas porque representam uma visão ética herdada culturalmente e aplicam-se, também elas, a aqueles que dessa visão de “justiça” não partilhem.".
Isto é uma maneira muito bonita de fugir ao ponto. As leis são coercivas porque são impostas graças ao recurso à (ameaça de utilização de) força física. É tão simples como isto. De nada adianta andar com os floreados da "visão ética herdada culturalmente" como justificação para a utilização de força sobre os indivíduos.
- "Defender a pureza do individualismo assente na total liberdade de fazer o que quisermos desde que não prejudique outro tem muito que se lhe diga."
Não, não tem muito que se lhe diga. Eu nada tenho a ver com o que outro faz em casa dele. Não há como justificar que, apesar de ele querer comer beringelas ao jantar, eu o obrigue a comer atum. E se ele quiser fumar, está a seu bel prazer - queira ele fumar tabaco, cannabis ou crack. Não prejudica ninguém, não interfere minimamente a vida de outrem. A única coisa que tem que se lhe diga são estes tiques do "se estou certo, posso obrigar as pessoas a fazerem o que eu digo".
- "Claro que existe uma solução para o individualismo radical utópico (saliento, radical utópico): deixar de viver em sociedade."
Tão bom, classificar as posições que não gostamos com palavras com conotação negativa. Mas fora isso, gostaria que me fosse indicado como é que eu posso deixar de viver em sociedade. É que parece que tenho que resolver este meu problema (?) de não me querer meter na vida de outrém.
- "Individualismo não tem de significar, necessariamente, anarquismo."
E a pièce de résistance: *gasp* O ANARQUISMO. Toda a gente sabe que numa anarquia ninguém quer viver. Até porque anarquismo é exactamente a mesma coisa que uma anomia.
E entretanto são 2:45. Vou é para a cama.