18 Dec 2010

São duas da manhã e eis que:

.. me deparo com isto. Um post sobre drogas. Eu gosto muito de posts sobre drogas. Revelam muito sobre as pessoas e a sua posição sobre as liberdades individuais. E este post é muito revelador. Como são duas da manhã, queria só deixar aqui notas muito rápidas:

- "O argumento recorrente, pró-legalização é o já conhecido paralelismo com o álcool e tabaco. (...) Two wrongs don’t make a right."

Caríssimo. O problema não é o álcool ou o tabaco (ou até mesmo o café) serem legais. Isso é a parte que *está bem*. A parte que está mal é mesmo as restantes drogas (ditas ilegais) serem ilegais. Até porque a maior parte delas (LSD, Cannabis, Ecstasy) representam um menor risco de adição e, simultaneamente, um menor risco para a saúde.

- "Não se pode é esquecer que existe uma questão cultural associada aos hábitos de consumo de determinados produtos. Se o álcool e o tabaco têm uma determinada percepção pela sociedade ocidental, a droga tem outra totalmente diferente."

Muito sinceramente, bullshit. Até a década de 1950, a heroína era legal em Inglaterra. O ópio era legal, consumido e apreciado até inícios do séc XX em praticamente todo o mundo. A cocaína só passou a ser "ilegalizada" (leia-se, tinha impostos elevadissimos) nos EUA depois do Harrisson Act (1914). O mesmo aconteceu com a Cannabis, mas só em 1937 (Marijuana Tax Act). A proibição de determinadas drogas nada teve a ver com "percepção pela sociedade ocidental" mas sim com a intromissão dos Estados.

Ainda há aqui outra pergunta a levantar. Se "determinada percepção pela sociedade" ditasse que a escravidão era fixe, isso tornaria a escravidão legítima? Ou, mais subtil, se ditasse que "o islamismo é uma religião assassina e por isso deve ser banida", isso tornaria a proibição do islamismo legítima?

Há ainda outro ponto que é fabuloso, mas recorrente, ao longo do texto. A separação entre "o álcool e o tabaco" e "a droga". Adoro estes jogos de palavras. Como a "droga" é má, tem uma conotação negativa, convém separar "o álcool e o tabaco" d'"a droga", senão o nosso ponto vai ao ar.

- "As Leis são coercivas porque representam uma visão ética herdada culturalmente e aplicam-se, também elas, a aqueles que dessa visão de “justiça” não partilhem.".

Isto é uma maneira muito bonita de fugir ao ponto. As leis são coercivas porque são impostas graças ao recurso à (ameaça de utilização de) força física. É tão simples como isto. De nada adianta andar com os floreados da "visão ética herdada culturalmente" como justificação para a utilização de força sobre os indivíduos.

- "Defender a pureza do individualismo assente na total liberdade de fazer o que quisermos desde que não prejudique outro tem muito que se lhe diga."

Não, não tem muito que se lhe diga. Eu nada tenho a ver com o que outro faz em casa dele. Não há como justificar que, apesar de ele querer comer beringelas ao jantar, eu o obrigue a comer atum. E se ele quiser fumar, está a seu bel prazer - queira ele fumar tabaco, cannabis ou crack. Não prejudica ninguém, não interfere minimamente a vida de outrem. A única coisa que tem que se lhe diga são estes tiques do "se estou certo, posso obrigar as pessoas a fazerem o que eu digo".

- "Claro que existe uma solução para o individualismo radical utópico (saliento, radical utópico): deixar de viver em sociedade."

Tão bom, classificar as posições que não gostamos com palavras com conotação negativa. Mas fora isso, gostaria que me fosse indicado como é que eu posso deixar de viver em sociedade. É que parece que tenho que resolver este meu problema (?) de não me querer meter na vida de outrém.

- "Individualismo não tem de significar, necessariamente, anarquismo."

E a pièce de résistance: *gasp* O ANARQUISMO. Toda a gente sabe que numa anarquia ninguém quer viver. Até porque anarquismo é exactamente a mesma coisa que uma anomia.

E entretanto são 2:45. Vou é para a cama.

14 Dec 2010

Dia da Defesa Nacional

Sendo eu um jovem saudável de 18 anos, consta que o Estado quer dar-me uma injecção da lenga lenga "as forças armadas são tão boas, venham ter connosco". Sim, fui convocado para o Dia da Defesa Nacional. Consta que o Estado tem legitimidade para me mandar sair de casa, para me dar um dia de palestras sobre as quais eu não nutro o mínimo interesse e, muito melhor, de aplicar as seguintes medidas caso eu não compareça com o que me foi ordenado:

Falta não Justificada

A falta não justificada implica:
  • Aplicação de coima de 249,40€ a 1247€;
  • Inibição para o exercício de funções públicas;
  • Fixação de novo prazo para o dever de comparência ao Dia da Defesa Nacional.
  • Acresce ainda que, em caso de necessidade de convocação, por falta de efectivos para a satisfação das necessidades fundamentais das Forças Armadas, o cidadão que faltou é, preferencialmente, chamado.

Sempre ouvi dizer que a minha geração é uma geração de carneiros. Que não tem iniciativa. Que não vai mudar nada porque não se mexe. Pois bem, vou dar o meu pequeno contributo. Não vou comparecer ao Dia da Defesa Nacional. Não acredito que o Estado tenha o direito de me ordenar onde devo estar e o que devo fazer. Não vejo que haja qualquer legitimidade por parte do Estado para me punir por eu recusar a participação em actividades promovidas por instituições que têm como objectivo fins violentos (as Forças Armadas, portanto). Portanto vou, muito pacificamente, não comparecer. Não acho que seja sequer necessário que apresente uma justificação: o facto de não querer ir é justificação suficiente, estou no meu direito.

Vamos ver como corre.