Vi esta pergunta no /r/libertarian e fiquei a pensar: será que, mais do que estar disposto, é possível defender o libertarianismo com base em argumentos "práticos"? Ou seja, recorrer aos argumentos daquilo a que se chama Libertarianismo Consequencialista (por oposição a uma defesa deontológica da ideologia libertária, baseada em normais morais).
No entanto, surgiu-me imediatamente uma nova questão: será que o devo fazer? Esta pergunta surge dentro da minha cabeça por uma razão muito simples: ao longo de toda a minha "vida intelectual" (ou seja, desde que me interesso por estes assuntos), tenho assistido a uma constante tentativa de se provar, por via de números, dados, indicadores simples e compostos e restantes, que "isto é melhor que aquilo" - que o Socialismo produz melhores resultados porque há estudos empíricos que o demonstram, que o Liberalismo é que é porque há uma correlação forte entre liberdade económica e nível de vida, que o Conservadorismo deve ser o caminho a seguir porque os indicadores demonstram que os países com políticas conservadores têm melhores performances. E "toda a gente" parece conseguir provar que os resultados naquele sistema são os melhores e os desejáveis.
As razões para tal acontecer são relativamente simples de deslindar: apesar de ser quase impossível provar que determinada política teve realmente o efeito desejado/anunciado, é muito fácil convencer que tal acontece: afinal de contas, se o Governo decide "dar apoios às exportações" e as exportações sobem, quem é que não se acredita que foi graças à acção governativa que tal aconteceu? Claro que, provavelmente, o aumento das exportações se deu devido ao aumento do preço de algum bem num mercado internacional, ou ao aumento da procura, ou à descoberta de uma tecnologia que permitiu baixar os preços, ou a uma moda, ou sabe-se lá. Mas é muito mais fácil olhar para as coisas de modo simplificado, olhar para apenas para "that which is seen", e nunca para "that which is not seen"*. É muito provável que estas ajudas às exportações tenham, no médio-longo prazo, o efeito contrário ao pretendido.
Portanto, acaba por ser simples dizer que "isto" causou "aquilo" desde que haja uma aparente proximidade temporal entre o suposto "efeito" e a suposta "causa". E é neste caos conceptual que se desenrola quase sem excepção todo o debate político e/ou ideológico: olhando unicamente para o efeito, e não prestando muita atenção às causas. Afinal de contas, o que interessa é que no final de contas, estejamos todos melhores! E, bem, se não estivermos, basta mudar de política.
No entanto, acabei por me cruzar com uma ideologia que fugia um bocado a este esquema. Primeiro, cruzei-me com a Escola Austríaca que, de modo quase impossível (diria muita gente), cria teoria económica sem a utilização de bases empíricas - sim, utilizam exclusivamente a lógica, derivando a sua teoria a partir de axiomas da acção humana. Depois, com toda uma "teoria social" (não sei que outro nome dar a todo o trabalho desenvolvido por Rothbard, Hoppe, Mises e restantes, na vertente não-económica) que oscila entre o minarquismo e o anarco-capitalismo, que utilizando os mesmos axiomas, desenvolve justificações puramente lógicas para esses sistemas.
Apesar de não ter conhecimento de mais nenhuma ideologia (enquanto conjunto coerente e interligado de ideias) que use apenas a lógica como fundamento da sua teoria, acredito que exista. No entanto, acaba por ser um rompimento enorme com aquilo que se faz "comummente". E não deixa de ser atractivo: raios, se isto for realmente verdade, só pode ter tudo para ser a solução.
Voltando à questão inicial: será que, realmente, estarei disposto a defender o libertarianismo numa vertente consequencialista? Bem, talvez. Mas não vejo propriamente a razão de ser dessa defesa: o libetarianismo é uma ideologia suficientemente sólida do ponto de vista deontológico. Melhor ainda, faz uso de uma das melhores (se não mesmo a melhor, mas não as conheço a todas) escolas de pensamento económico para garantir que não falha nesse aspecto. Fantástico, ao que parece as consequências corroboram esta escolha.
Claro que as hordas utilitaristas rangerão os dentes com abundância ao lerem isto: a deontologia é uma abordagem ultrapassada, cheia de problemas, o Stuart Mill é que tinha razão e este tipo de pensamento não é científico, se não usa a ciência não pode estar certo, etc etc etc. E se até posso reconhecer os problemas, eles serão menos gravosos e mais fáceis de solucionar do que numa base utilitarista.
* Sim, foi uma referência muito erudita ao trabalho do Bastiat.
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