Não me apetece muito definir o que considero "macroeconomia", por isso vou usar a definição comummente aceite de que a macroeconomia "is a branch of economics dealing with the performance, structure, behavior, and decision-making of the entire economy." [1]
Tenho para mim que a macroeconomia é uma disciplina de pendor socializante. A premissa da análise de indicadores exclusivamente agregados leva-a, quase sempre, a uma conclusão errónea. Simultaneamente, leva a que a economia, enquanto área de estudo e conhecimento, se torne altamente desacreditada.
Eu percebo porque é a macroeconomia é algo tão fascinante para tantas pessoas: seria de facto fantástico que alguém, sentado do seu escritório no Terreiro do Paço, pudesse dizer "bem, agora vamos aumentar a despesa agregada", e isso se traduzisse em efeitos positivos para o "Zé" (e por "Zé", quero dizer todos os 10 milhões de "Zés" que há em Portugal). Claro que toda a gente que estudou um pouco macroeconomia sabe que isto não é bem assim, que não há políticas económicas perfeitas, mas que, de modo geral, é bom aumentar a despesa agregada, porque o efeito multiplicativo leva a que o GDP aumente.
No entanto, e não querendo por em causa as sempre boas intenções de quem toma políticas económicas, as decisões políticas baseadas em análises macroeconómicas só podem ser justificável recorrendo à uma análise consequencialista (o objectivo é sempre melhorar os indicadores agregados como a taxa de desemprego, o GDP, etc). No entanto, esta análise a posteriori está sempre sujeita a inúmeros problemas (alguns dos quais foram aludidos aqui). Há ainda a questão do "pendor socializante", que referi mais acima: precisamente devido ao facto de a macro lidar com indicadores altamente agregados, é que se esquece completamente do "indivíduo". Desde que o GDP suba, não interessa propriamente como. Não interessa se as trocas foram voluntárias ou se existiu agressão. Não interessa se o mercado é livre ou se há monopólios. Se a taxa de desemprego subiu, é uma vitória: ninguém quer saber porque é que subiu.
Já a tomada de decisão com base na análise macroeconómica é, invariavelmente, um desastre que varia apenas na sua magnitude. Se, na teoria, os modelos AE=GDP ou funcionam perfeitamente, e tudo bate certo, a verdade é que tomar uma decisão com base em informação não perfeita e com desfasamento temporal, sem ter a certeza do tempo exacto de "propagação" de tais medidas, crer que todos os factores endógenos e exógenos são constantes e ainda pressupor que a resposta agregada dos agentes vai ser "aquela", é impossível. E não é "quase impossível" ou "muito difícil", é mesmo impossível. Os agentes económicos agem, por vezes, de maneira irracional (é diferente ser racional de agir sempre de maneira racional, convém ressalvar), é impossível prever qual é a resposta exacta que cada pessoa (e as pessoas no seu agregado) vai dar aos incentivos recém-criados, e por aí adiante. A "impossibilidade da decisão perfeita", chamemos-lhe assim, poderia não ser uma crítica (vide falácia da solução perfeita); no entanto, esta "perfeição" matemática é admitida pelos próprios proponentes das teorias macroeconómicas. O busílis está, simplesmente, que querem traduzir matematicamente situações que nem sempre seguem a lógica e isso, obviamente, não faz sentido - as premissas estão erradas.
Claro que quando a macroeconomia é orientadora da política da esmagadora maioria dos países, seja na vertente keynesiana, seja na vertente monetarista, acaba por passar para o público que a Economia apenas lida com estes grandes agregados; quando se fala sobre "Economia" com alguém, normalmente ninguém fala de custos de oportunidade, de equilíbrios de mercado, de eficiência ou preços, mas praticamente só de taxas de desemprego, de PIB, de taxas de inflação e demais grandes agregados. E quando o desemprego aumenta, mesmo se os modelos dizem que devia ter diminuído, as pessoas pensam que a Economia, como um todo, sai descredibilizada. Culpam a Economia sem perceberem que foi algo mais parecido com a "astrologia" do que com a Economia que causou tal desvio.
No final de contas, não consigo gostar da macroeconomia. Parece-me algo com mais em comum com a adivinhação do que com a Economia.
2 comentários:
Subiste de nível.
Olá trata-se a 3ª vez que vi o teu blogue e adorei tanto!Bom Projecto!
Até à próxima
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