Há coisas que me fazem genuína confusão. Por exemplo, faz-me imensa confusão a combinação que prolifera em Portugal entre Estatismo, Democracia e uma espécie de concepção generalizada sobre quem deve governar o país.
Desde 1974 que se tornou crença generalizada que a Democracia, o povo a escolher representantes vindos do povo para governar o povo, é uma cena fixe. E não há propriamente um qualquer ideal sólido por detrás disto, simplesmente aderiu-se em massa a Democracia, como se aderiu em massa ao Estado Novo - e, tal como na década de 30, nunca o povo pôs em causa a Democracia. E pôr em causa a Democracia não é necessariamente o intuito de revolucionar e "partir para outra", mas nunca se fez sequer o mínimo esforço para melhorar o que quer que seja. Não me interessa muito discutir se a Democracia seja uma coisa boa ou má, mas parece-me óbvio afirmar que não é "a" solução, aquilo que nos vai resolver todos os problemas. E, obviamente, exige trabalho de toda a sociedade para a tornar "usável". E é isso que o povo não faz.
Há, em paralelo, a ideia que aquilo que o povo que deve governar o povo, na verdade, não é do povo. A ideia de que quem deve estar "lá em cima" são pessoas sérias, impolutas, honestas e que põem o "interesse nacional" à frente do "interesse pessoal". E, bem, quem contacte minimamente com o "zé povinho" sabe que, numa situação de grande poder, não é assim que ele vai proceder - e temos a prova disso nestes últimos anos (nota: ninguém está a dizer que as intenções são boas ou más, estamos apenas a analisar as acções). Na verdade, o povo quer uma elite no poder: uma elite que não se corrompa, que não conceda cunhas, que não tenha medo de dizer a verdade e de dizer como é que o povo deve agir. Eu, pessoalmente, não acho que Salazar (enquanto personagem) tenha marcado Portugal de sobremaneira: antes de Salazar, já o povo Português era assim, sem tirar nem por; só deste modo se percebe tanta admiração por personagens como o "Marquês de Pombal" ou qualquer Rei de Portugal.
Ou seja, no fundo, o povo quer votar para por uma elite no poder. Nada contra. Mas há aqui outro factor que deve entrar em conta, no meio disto tudo: o tal Estatismo.
Nos dias que correm, temos o Estado a empregar um enorme número de pessoas - e isso é tido como bom. Queremos que o Estado nos proteja na saúde e na doença, nos bons e nos maus momentos. E, obviamente, isso começa logo no emprego. E o Estado emprega muita gente para desempenhar as funções que a população, supostamente, lhe delegou. Estaremos a falar em números entre os 15 a 25% da população portuguesa (ninguém consegue saber o número exacto, é um mistério). E a quantidade de gente com poder suficiente para contratar pessoas, alterar leis, mexer na economia, etc, é enorme dentro do aparelho estatal português (e eu sei que é vago, mas pensem só na quantidade de entidades reguladoras, de empresas estatais, de gestores de "topo", e por aí fora). E essa gente, supostamente, deveria ser uma elite: pessoas que, tendo o poder para fazer algo, não se deixariam deslumbrar por ele e tomariam decisões que seriam eficientes (o que por si só é um enorme problema, vide isto). Mas não, a verdade é que esta gente é quase sempre o exemplo acabado que o povo nos pode oferecer: corrupta, mal educada, com pouca educação, quase nenhuns princípios e a actividade cerebral de um protozoário.
Resumindo: o povo diz que quer o povo a governar o povo; mas no fundo, gostaria que fosse uma elite; mas, mesmo assim, continua a querer que o Estado todo-poderoso seja dominado por pessoas que são exactamente o contrário daquilo que se deseja. E tudo isto é extremamente confuso. Afinal de contas, é impossível que 20% da população seja a elite de uma sociedade. É impossível quer uma elite a governar, continuar a eleger povo lá "para cima" e isto dar bom resultado. Não percebo. Daí que não consiga evitar soltar um sonoro "lol" a Portugal.
2 comentários:
Posso lolar contigo? =)
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