30 Apr 2011

Da macroeconomia

Não me apetece muito definir o que considero "macroeconomia", por isso vou usar a definição comummente aceite de que a macroeconomia "is a branch of economics dealing with the performance, structure, behavior, and decision-making of the entire economy." [1]

Tenho para mim que a macroeconomia é uma disciplina de pendor socializante. A premissa da análise de indicadores exclusivamente agregados leva-a, quase sempre, a uma conclusão errónea. Simultaneamente, leva a que a economia, enquanto área de estudo e conhecimento, se torne altamente desacreditada.

Eu percebo porque é a macroeconomia é algo tão fascinante para tantas pessoas: seria de facto fantástico que alguém, sentado do seu escritório no Terreiro do Paço, pudesse dizer "bem, agora vamos aumentar a despesa agregada", e isso se traduzisse em efeitos positivos para o "Zé" (e por "Zé", quero dizer todos os 10 milhões de "Zés" que há em Portugal). Claro que toda a gente que estudou um pouco macroeconomia sabe que isto não é bem assim, que não há políticas económicas perfeitas, mas que, de modo geral, é bom aumentar a despesa agregada, porque o efeito multiplicativo leva a que o GDP aumente.

No entanto, e não querendo por em causa as sempre boas intenções de quem toma políticas económicas, as decisões políticas baseadas em análises macroeconómicas só podem ser justificável recorrendo à uma análise consequencialista (o objectivo é sempre melhorar os indicadores agregados como a taxa de desemprego, o GDP, etc). No entanto, esta análise a posteriori está sempre sujeita a inúmeros problemas (alguns dos quais foram aludidos aqui). Há ainda a questão do "pendor socializante", que referi mais acima: precisamente devido ao facto de a macro lidar com indicadores altamente agregados, é que se esquece completamente do "indivíduo". Desde que o GDP suba, não interessa propriamente como. Não interessa se as trocas foram voluntárias ou se existiu agressão. Não interessa se o mercado é livre ou se há monopólios. Se a taxa de desemprego subiu, é uma vitória: ninguém quer saber porque é que subiu.

Já a tomada de decisão com base na análise macroeconómica é, invariavelmente, um desastre que varia apenas na sua magnitude. Se, na teoria, os modelos AE=GDP ou funcionam perfeitamente, e tudo bate certo, a verdade é que tomar uma decisão com base em informação não perfeita e com desfasamento temporal, sem ter a certeza do tempo exacto de "propagação" de tais medidas, crer que todos os factores endógenos e exógenos são constantes e ainda pressupor que a resposta agregada dos agentes vai ser "aquela", é impossível. E não é "quase impossível" ou "muito difícil", é mesmo impossível. Os agentes económicos agem, por vezes, de maneira irracional (é diferente ser racional de agir sempre de maneira racional, convém ressalvar), é impossível prever qual é a resposta exacta que cada pessoa (e as pessoas no seu agregado) vai dar aos incentivos recém-criados, e por aí adiante. A "impossibilidade da decisão perfeita", chamemos-lhe assim, poderia não ser uma crítica (vide falácia da solução perfeita); no entanto, esta "perfeição" matemática é admitida pelos próprios proponentes das teorias macroeconómicas. O busílis está, simplesmente, que querem traduzir matematicamente situações que nem sempre seguem a lógica e isso, obviamente, não faz sentido - as premissas estão erradas.

Claro que quando a macroeconomia é orientadora da política da esmagadora maioria dos países, seja na vertente keynesiana, seja na vertente monetarista, acaba por passar para o público que a Economia apenas lida com estes grandes agregados; quando se fala sobre "Economia" com alguém, normalmente ninguém fala de custos de oportunidade, de equilíbrios de mercado, de eficiência ou preços, mas praticamente só de taxas de desemprego, de PIB, de taxas de inflação e demais grandes agregados. E quando o desemprego aumenta, mesmo se os modelos dizem que devia ter diminuído, as pessoas pensam que a Economia, como um todo, sai descredibilizada. Culpam a Economia sem perceberem que foi algo mais parecido com a "astrologia" do que com a Economia que causou tal desvio.

No final de contas, não consigo gostar da macroeconomia. Parece-me algo com mais em comum com a adivinhação do que com a Economia.

25 Apr 2011

lol, Portugal.

Há coisas que me fazem genuína confusão. Por exemplo, faz-me imensa confusão a combinação que prolifera em Portugal entre Estatismo, Democracia e uma espécie de concepção generalizada sobre quem deve governar o país.

Desde 1974 que se tornou crença generalizada que a Democracia, o povo a escolher representantes vindos do povo para governar o povo, é uma cena fixe. E não há propriamente um qualquer ideal sólido por detrás disto, simplesmente aderiu-se em massa a Democracia, como se aderiu em massa ao Estado Novo - e, tal como na década de 30, nunca o povo pôs em causa a Democracia. E pôr em causa a Democracia não é necessariamente o intuito de revolucionar e "partir para outra", mas nunca se fez sequer o mínimo esforço para melhorar o que quer que seja. Não me interessa muito discutir se a Democracia seja uma coisa boa ou má, mas parece-me óbvio afirmar que não é "a" solução, aquilo que nos vai resolver todos os problemas. E, obviamente, exige trabalho de toda a sociedade para a tornar "usável". E é isso que o povo não faz.

Há, em paralelo, a ideia que aquilo que o povo que deve governar o povo, na verdade, não é do povo. A ideia de que quem deve estar "lá em cima" são pessoas sérias, impolutas, honestas e que põem o "interesse nacional" à frente do "interesse pessoal". E, bem, quem contacte minimamente com o "zé povinho" sabe que, numa situação de grande poder, não é assim que ele vai proceder - e temos a prova disso nestes últimos anos (nota: ninguém está a dizer que as intenções são boas ou más, estamos apenas a analisar as acções). Na verdade, o povo quer uma elite no poder: uma elite que não se corrompa, que não conceda cunhas, que não tenha medo de dizer a verdade e de dizer como é que o povo deve agir. Eu, pessoalmente, não acho que Salazar (enquanto personagem) tenha marcado Portugal de sobremaneira: antes de Salazar, já o povo Português era assim, sem tirar nem por; só deste modo se percebe tanta admiração por personagens como o "Marquês de Pombal" ou qualquer Rei de Portugal.

Ou seja, no fundo, o povo quer votar para por uma elite no poder. Nada contra. Mas há aqui outro factor que deve entrar em conta, no meio disto tudo: o tal Estatismo.

Nos dias que correm, temos o Estado a empregar um enorme número de pessoas - e isso é tido como bom. Queremos que o Estado nos proteja na saúde e na doença, nos bons e nos maus momentos. E, obviamente, isso começa logo no emprego. E o Estado emprega muita gente para desempenhar as funções que a população, supostamente, lhe delegou. Estaremos a falar em números entre os 15 a 25% da população portuguesa (ninguém consegue saber o número exacto, é um mistério). E a quantidade de gente com poder suficiente para contratar pessoas, alterar leis, mexer na economia, etc, é enorme dentro do aparelho estatal português (e eu sei que é vago, mas pensem só na quantidade de entidades reguladoras, de empresas estatais, de gestores de "topo", e por aí fora). E essa gente, supostamente, deveria ser uma elite: pessoas que, tendo o poder para fazer algo, não se deixariam deslumbrar por ele e tomariam decisões que seriam eficientes (o que por si só é um enorme problema, vide isto). Mas não, a verdade é que esta gente é quase sempre o exemplo acabado que o povo nos pode oferecer: corrupta, mal educada, com pouca educação, quase nenhuns princípios e a actividade cerebral de um protozoário.

Resumindo: o povo diz que quer o povo a governar o povo; mas no fundo, gostaria que fosse uma elite; mas, mesmo assim, continua a querer que o Estado todo-poderoso seja dominado por pessoas que são exactamente o contrário daquilo que se deseja. E tudo isto é extremamente confuso. Afinal de contas, é impossível que 20% da população seja a elite de uma sociedade. É impossível quer uma elite a governar, continuar a eleger povo lá "para cima" e isto dar bom resultado. Não percebo. Daí que não consiga evitar soltar um sonoro "lol" a Portugal.